Jogos como fuga emocional: quando jogar se torna uma forma de não sentir

Foi um dia difícil.
Você discutiu com alguém.
Recebeu uma cobrança no trabalho.
Está preocupado com alguma coisa.
Sente-se sozinho.
Ou talvez nem saiba exatamente o que está sentindo.
Liga o videogame.
Pouco tempo depois, sua atenção está completamente concentrada em outra coisa.
Existe uma missão para cumprir.
Uma partida para ganhar.
Um personagem para desenvolver.
Outras pessoas conversando com você.
Durante algum tempo, os problemas parecem ter ficado do lado de fora da tela.
E existe algo importante aqui:
isso não é necessariamente ruim.
Todos nós precisamos descansar, nos divertir e encontrar maneiras de aliviar a tensão do cotidiano.
O problema pode começar quando jogar deixa de ser apenas uma forma de lazer e passa a ser uma das únicas maneiras de não entrar em contato com aquilo que sentimos.
Jogar para relaxar é diferente de jogar para fugir?
Nem sempre existe uma linha clara separando as duas coisas.
Você pode chegar cansado depois do trabalho e jogar durante algum tempo simplesmente porque gosta.
Pode se divertir.
Conversar com amigos.
Relaxar.
E depois seguir com outras atividades.
Isso faz parte de uma relação saudável com o lazer.
Mas imagine outra situação.
Sempre que algo difícil acontece, você joga.
Quando sente ansiedade, joga.
Quando está triste, joga.
Quando se sente sozinho, joga.
Quando precisa tomar uma decisão difícil, joga.
Quando existe um problema esperando para ser resolvido, joga.
Nesse momento, talvez o jogo esteja cumprindo outra função:
ajudar você a não sentir — pelo menos durante algum tempo.
O que é fuga emocional?
Fuga emocional não significa necessariamente sair correndo de alguma coisa.
Podemos fugir permanecendo exatamente onde estamos.
Às vezes fazemos isso trabalhando excessivamente.
Dormindo.
Comendo.
Assistindo a séries.
Rolando redes sociais.
Jogando.
Esses comportamentos podem diminuir temporariamente uma emoção desagradável.
Na psicologia, costumamos olhar não apenas para o que uma pessoa faz, mas também para qual função aquele comportamento está cumprindo.
Por isso, duas pessoas podem jogar o mesmo jogo durante o mesmo número de horas e ter relações completamente diferentes com essa atividade.
Para uma, é lazer.
Para outra, tornou-se a principal estratégia para suportar a própria vida emocional.
Por que os jogos podem ser tão eficientes para isso?
Porque eles conseguem capturar nossa atenção de maneira intensa.
Durante uma partida, precisamos observar o ambiente, tomar decisões, reagir rapidamente, resolver problemas e perseguir objetivos.
Existe pouco espaço mental disponível para pensar:
“Meu relacionamento está ruim.”
“Estou preocupado com meu emprego.”
“Não sei o que fazer da minha vida.”
“Estou me sentindo sozinho.”
“Tenho medo de fracassar.”
Por algumas horas, existe apenas o próximo objetivo.
Isso pode produzir um alívio genuíno.
E nosso cérebro aprende rapidamente com o alívio.
Como esse ciclo pode se formar?
Imagine uma pessoa que está enfrentando dificuldades profissionais.
No final do dia, pensa:
“Não sou bom o suficiente para esse trabalho.”
Sente ansiedade e frustração.
Liga o videogame.
Durante três horas, não pensa mais nisso.
Sente-se competente.
Cumpre objetivos.
Ganha partidas.
Recebe reconhecimento dos outros jogadores.
A ansiedade diminui.
Naquele momento, jogar funcionou.
Mas o problema profissional continua existindo.
No dia seguinte, o desconforto aparece novamente.
E o cérebro já conhece uma maneira rápida de afastá-lo:
jogar.
Assim pode surgir um ciclo:
emoção difícil → jogo → alívio → problema permanece → emoção retorna → jogo novamente.
Quanto mais esse padrão se repete, mais automático pode se tornar.
O mundo virtual pode oferecer aquilo que está faltando no mundo real
Existe outro aspecto que merece acolhimento, não julgamento.
Imagine alguém que está passando por um momento em que sente pouca realização na vida.
No trabalho, sente-se incompetente.
Nos relacionamentos, inseguro.
Não sabe muito bem para onde sua vida está caminhando.
Mas, dentro do jogo, tudo muda.
Existe uma missão clara.
Objetivos definidos.
Progresso visível.
Recompensas.
Competência.
Reconhecimento.
Talvez até uma comunidade na qual aquela pessoa se sinta importante.
Por isso, dizer simplesmente:
“É só desligar o videogame e viver a vida real.”
pode ignorar uma pergunta muito mais importante:
“O que essa pessoa encontrou dentro do jogo que está faltando fora dele?”
Às vezes, o jogo não é o problema principal
Esse ponto é fundamental.
Uma pessoa pode procurar ajuda dizendo:
“Estou jogando demais.”
Mas, durante o processo terapêutico, talvez apareçam outras questões.
Ansiedade.
Depressão.
Solidão.
Baixa autoestima.
Dificuldades sociais.
Problemas familiares.
Frustrações profissionais.
Medo de fracassar.
Sensação de não pertencimento.
Nesse caso, reduzir o tempo de jogo sem trabalhar essas questões pode significar apenas retirar uma estratégia que a pessoa estava utilizando para lidar com o sofrimento.
Por isso, precisamos compreender o comportamento antes de simplesmente tentar eliminá-lo.
“Mas jogar me faz bem.”
Pode fazer.
E reconhecer isso é importante.
Se jogar não proporcionasse nada positivo, provavelmente seria muito mais fácil parar.
Talvez você se sinta bem jogando.
Talvez seja um dos poucos momentos em que consegue relaxar.
Talvez seus amigos estejam ali.
Talvez seja o lugar onde se sente competente.
Talvez seja genuinamente divertido.
A questão não precisa ser:
“Jogar faz bem ou faz mal?”
Pode ser:
“Além de jogar, quais outras maneiras eu tenho de lidar com aquilo que sinto?”
Quando existe apenas uma resposta para praticamente todo desconforto emocional, nossa liberdade começa a diminuir.
Como perceber se estou usando jogos para fugir?
Algumas perguntas podem ajudar nessa reflexão:
Costumo jogar principalmente quando estou ansioso, triste ou frustrado?
Quando tenho um problema, jogo antes de tentar resolvê-lo?
Uso os jogos para evitar pensar em determinadas situações?
Fico desconfortável quando não posso jogar e preciso ficar sozinho com meus pensamentos?
Tenho abandonado outras formas de lazer?
Estou me afastando de pessoas ou atividades importantes?
Depois de jogar, meus problemas costumam estar maiores porque foram adiados?
Sinto culpa frequentemente pelo tempo que passei jogando?
Tenho dificuldade para identificar o que estou sentindo antes de começar a jogar?
Responder “sim” a alguma dessas perguntas não significa que você tenha um transtorno.
Elas servem para ajudar a compreender qual função o jogo pode estar exercendo na sua vida.
Evitar emoções não faz com que elas desapareçam
Quando evitamos uma emoção, normalmente existe uma razão.
Ela é desconfortável.
Ninguém gosta de sentir ansiedade, tristeza, vergonha, medo ou frustração.
O problema é que emoções não costumam desaparecer simplesmente porque deixamos de prestar atenção nelas.
Podemos adiar o contato.
Mas aquilo que provocou a emoção muitas vezes continua existindo.
É como silenciar temporariamente um alarme sem descobrir por que ele começou a tocar.
Em algum momento, talvez ele volte.
Então preciso parar de jogar quando estiver triste?
Não.
Transformar o jogo em algo proibido pode criar outro extremo.
Você pode estar triste e decidir jogar porque quer descansar.
Pode ter tido um dia difícil e querer se divertir.
Isso é legítimo.
A diferença está em perceber se existe escolha.
“Estou jogando porque quero jogar.”
é diferente de:
“Preciso jogar porque não consigo lidar com o que estou sentindo.”
Essa distinção nem sempre é fácil de perceber.
Mas pode ser muito importante.
Como a Terapia Cognitivo-Comportamental pode ajudar?
Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), podemos observar a relação entre situação, pensamentos, emoções e comportamentos.
Por exemplo:
Situação: tive um conflito no trabalho.
Pensamento: “Eu nunca faço nada direito.”
Emoções: tristeza, vergonha e ansiedade.
Comportamento: chego em casa e começo a jogar.
Consequência imediata: alívio e distração.
Consequência posterior: o problema continua sem ser enfrentado e outras responsabilidades são adiadas.
A terapia pode ajudar a pessoa a reconhecer esse padrão, compreender os pensamentos envolvidos e desenvolver diferentes estratégias para lidar com emoções difíceis.
Isso pode incluir aprender a tolerar desconfortos, resolver problemas, comunicar necessidades, reconstruir atividades importantes e ampliar as fontes de prazer e realização fora dos jogos.
O objetivo não precisa ser retirar aquilo que a pessoa gosta.
Pode ser aumentar seu repertório de escolhas.
O que poderia existir além do jogo?
Essa talvez seja uma pergunta mais interessante do que:
“Como faço para jogar menos?”
Se o jogo oferece pertencimento, onde mais você poderia construir conexão?
Se oferece competência, quais atividades fora dele poderiam proporcionar sensação de progresso?
Se oferece descanso, existem outras maneiras de descansar?
Se ajuda a lidar com ansiedade, quais outras estratégias você poderia desenvolver?
Se oferece sentido, o que está faltando na vida fora da tela?
Reduzir um comportamento se torna muito mais difícil quando não existe nada para ocupar o espaço deixado por ele.
Quando procurar ajuda?
Talvez seja importante buscar acompanhamento psicológico quando você percebe que os jogos se tornaram sua principal forma de lidar com sofrimento emocional.
Quando praticamente qualquer problema termina diante da tela.
Quando você quer diminuir, mas não consegue.
Quando sono, estudos, trabalho ou relacionamentos estão sendo prejudicados.
Quando outras atividades perderam importância.
Ou quando percebe que o mundo virtual parece ser o único lugar em que ainda consegue se sentir bem.
Não é preciso esperar perder completamente o controle para procurar ajuda.
Um último lembrete
Talvez o videogame não tenha criado seu sofrimento.
Talvez ele tenha sido justamente o lugar que você encontrou para suportá-lo.
E reconhecer isso muda bastante a conversa.
Em vez de perguntar:
“Por que eu não consigo simplesmente parar de jogar?”
talvez seja possível perguntar:
“O que acontece comigo quando eu paro?”
O que aparece?
Ansiedade?
Solidão?
Tristeza?
Tédio?
Preocupação?
Sensação de vazio?
Talvez exista algo ali que merece ser compreendido.
Não para transformar os jogos em inimigos.
Mas para que você não precise desaparecer dentro deles sempre que a vida do lado de fora ficar difícil.
O objetivo não precisa ser abandonar aquilo que você gosta.
Pode ser construir uma vida na qual jogar continue sendo uma escolha, uma diversão, um encontro com amigos ou um momento de descanso.
E não o único lugar onde você consegue se sentir bem.